Idéias em Trânsito para Circulação Balanceada e Sobrevivência

Local
MAC Americana

Abertura
12 de setembro de 2008

Visitação
De 13 de setembro a 11 de outubro de 2008

Curadoria
Samantha Moreira e Maira Endo

Artistas
Alexandre Órion (São Paulo)
Alice Grou (Campinas)
Christian Román (Córdoba - Argentina)
Denise Valarini (Americana)
Diogo Bueno (Campinas)
Fábio Martins (Americana)
Gustavo Torrezan (Piracicaba)
Isabel Caccia (Córdoba - Argentina)
Isadora Gutmann (Campinas)
Nicolás Robbio (Argentina/São Paulo)
Norma Vieira (Campinas)
Sarah Valle (Campinas)
V-DOC (Campinas)

Produção
Ateliê Aberto Produções Contemporâneas


Apresentação

Vivemos um tempo onde a modernidade se hiperboliza e é, verdadeiramente, consumada. É um mundo sem medidas, mas cheio de contradições. Para o sociólogo francês Gilles Lipovetsky, chega a hipermodernidade, quando os paradoxos se multiplicam: o mito do progresso já não é mais levado a sério, mas acredita-se nos milagres da ciência; o presente parece ser de fato o que importa, mas é cercado por preocupações com o futuro.

A exposição "Idéias em trânsito para circulação balanceada e sobrevivência" apresenta trabalhos que, de alguma forma, reflitam sobre questões ligadas a idéia da sustentabilidade como conceito ampliado e problemática recorrente na hipermodernidade, aplicável e relacionado às mais variadas situações e problemas presentes em nosso dia-a-dia. Situações e problemas que são universais, parte do cotidiano de todo um planeta. Sustentabilidade não significa apenas preocupações ambientais, ainda que encontremos aí sua origem.

São características do tempo em que vivemos a intensificação da urbanização, o acesso crescente a novas tecnologias, o redesenho constante dos mapas político-econômico-culturais, a multidisciplinariedade, a globalização, o conflito entre o processo acelerado de globalização e as culturas nacionais, a corrupção dentro dos setores público e privado, a falência das instituições, a não distribuição de renda, o aquecimento global, o esgotamento dos recursos naturais, a preocupação com a preservação do planeta e com as gerações futuras, a problematização em torno do comportamento das pessoas e da forma de compartilhar os espaços e a vida.

A hipermodernidade, portanto, tem como realidade a crescente preocupação com a sustentabilidade e seus desdobramentos, ou seja, com a insustentabilidade que pode ser reconhecida no modo de vida global e na estrutura estabelecida através da qual tentamos desenvolver as nações e organizar o mundo.

Segundo Hans Dieleman, precisamos que nossa sociedade se torne 'reflexiva' e pense nos seus princípios-chave e presunções, dentre os quais está a noção de 'modernidade'. Por isso ele propõe a 'modernização reflexiva'. Precisamos refletir sobre as definições básicas de realidade que pautam nossas vidas e criar novas visões de mundo e novas definições.

Mas reflexividade e reflexão não são suficientes. É preciso também criar: um mundo novo que seja baseado numa gama de novos fenômenos, que vão desde novas definições de realidade a novos produtos: instituições, tecnologias, sistemas etc (DIELEMAN).

Para Dieleman, os artistas podem contribuir para pelo menos três categorias de reflexividade e de reflexão: 'descolamento', 'apoderamento' [empowerment], e 'encantamento'.

Descolamento é um processo de libertação das pessoas de suas atuais rotinas, definições de realidade e visões de mundo, abrindo suas mentes para novas rotinas, novas definições de realidade e novas visões de mundo. Obviamente isso é bastante essencial no desenvolvimento sustentável.

Apoderamento pode ser caracterizado como o processo de se dar às pessoas a convicção de que elas podem ter controle sobre suas próprias vidas e que podem
mudá-las. Apoderamento é o processo de dar às pessoas o poder mental. Obviamente isso também é crucial no desenvolvimento sustentável.

Encantamento é o processo de criar uma empatia ou uma fusão (romântica) da alma com um estado de coisas desejado. O encantamento pode acabar com as distinções entre os sentimentos subjetivos e a realidade objetiva. O encantamento é importante no desenvolvimento sustentável, uma vez que pode ajudar a construir um desejo positivo de mudar para algo novo.

A arte não precisa tomar a forma de ativismo (pode ser o caso), mas pode ser muito interessante como arte autônoma. Os artistas podem continuar trabalhando com os mundos da arte estabelecidos e podem ser outsiders que refletem sobre o mundo à sua volta. E ainda, os artistas podem fazer parte do mundo da produção e consumo do dia-a-dia e desempenhar um papel de (co-)criadores de novas práticas dentro das realidades do dia-a-dia (DIELEMAN).

O que é fundamental, para Dieleman, é não reduzir a arte a produtos ou objetos e esquecer dos processos por trás desses objetos. É muito mais frutífero encarar as artes como um processo de investigação que, normalmente, resulta em objetos tais como objetos visuais, objetos lingüísticos e produtos musicais, de multimídia e de performance.

A arte como plataforma de reflexão tem uma fatia de sua produção atual onde é intrínseca a questão da relação entre o cotidiano e a sobrevivência. Por isso, a idéia da mostra não é trazer artistas que trabalhem com material reciclado ou focar apenas a arte ativista e a questão ambiental do conceito de sustentabilidade.
O que se percebe é que a produção de arte atual acontece frequentemente a partir da reorganização e agrupamento de elementos, objetos e imagens já existentes.
Idéias em trânsito para circulação balanceada e sobrevivência" apresenta projetos de artistas que dialogam diretamente com esses propósitos, em diferentes processos e suportes de produção.


Breve descrição dos trabalhos

Alexandre Órion
Alexandre Órion apresenta Ossário, um vídeo registro de sua intervenção realizada em um túnel em São Paulo. Durante 13 madrugadas, utilizando retalhos de pano, removeu parte da camada de poluição que se deposita nas laterais do túnel, desenhando 3.500 crânios.

Alice Grou
A artista tem sua produção pautada no resgate e na memória. Sua instalação, a ser exposto pela primeira vez, é composta por 30 galhos de árvores recolhidos em um sítio onde viveu. Os galhos são envoltos por tinta automotiva preta, trazendo um aspecto de natureza industrializada, artificial.

Christian Román
O artista que vive em Córdoba, Argentina, se utiliza da paisagem natural e artificial através de fotos, instalações, intervenções e vídeos. Territórios e [des] -territórios fragmentados, novas caligrafias urbanas, ocupações em espaços inimagináveis.
Para a exposição estamos negociando um trabalho em vídeo.

Denise Valarini
O olhar da artista recai sobre a história. Sua investigação acontece no cotidiano. É o interesse por um passado que não necessariamente é seu. Ao compor esta instalação, inédita, ela mistura cartas, fotos e objetos que fazem parte do passado próprio e de sua família, a objetos estranhos, como cartas e bilhetes encontrados em livros de sebos.

Diogo Bueno
O artista faz uma intervenção na fachada da construção que abriga o Museu.
Seu trabalho reformula a paisagem e suas perspectivas, no olhar e no representa.
O desenho feito com fita adesiva diretamente no espaço se apresenta frágil em um primeiro momento, pelo uso do material de fácil remoção. Porém o processo do artista em desenhar sobrecarregando camadas de fixação da fita, faz com que o trabalho sobreviva ao tempo expositivo e do desejo de permanência.

Fábio Martins
Grafite e tatuagem é a principal referência do trabalho de Fábio. O que é permanente? O que ocupa? O que é permitido? O desenho do artista, que tem um caráter ornamental, de como pensar o corpo humano e urbano como suportes que se ampliam, ocupa toda uma parede do Museu, saindo pela porta de entrada.

Gustavo Torrezan
O vídeo do artista registra uma cadeira de plástico, vazia, sobre uma "ilha de madeira", que flutua no Rio de Piracicaba. A vídeo instalação para a exposição, tem em várias tv's o mesmo vídeo, multiplicando as cadeiras e criando a idéia de que descem rio abaixo.

Isabel Caccia
Apresenta um vídeo, parte do projeto Cancán, onde a artista troca com mulheres, meia-calças por pintura nas unhas. Após essa ação/ performance as meias são usadas para uma grande intervenção em uma praça de Córdoba. Entre as árvores, as meias se assemelham a teias, a coberturas para sombras sutis.

Isadora Gutmann
Antes de qualquer outra coisa, a artista é uma ativista em defesa dos animais. Para a exposição, a artista constrói, dentro de uma estrutura de madeira, uma realidade que é própria e é fantástica.

Nicolás Robbio
O artista tem como suporte o convite da exposição. A idéia é uma segunda edição/tiragem de um convite de uma exposição realizada na Inglaterra, que se assemelha a uma obra original, pelo material, desenho e recorte que o artista propõe.

Norma Vieira
A artista apresenta um desdobramento de trabalhos anteriores. Ao longo de uma mesa, a artista dispõe uma pequena "plantação" de arroz. No decorrer da exposição a plantação se desenvolve na área interna do museu, sob luz artificial. Na mesma mesa, uma seqüência de pratos em cerâmica, vazios.

Sarah Valle
Em suas fotografias, a artista posiciona a natureza como extensão de seu corpo. Elas são registros de encontros íntimos com a natureza. Empunhando uma caneta, ela desenha sobre a palma de sua outra mão, criando uma rede que envolve folhas, flores, o céu.

V-DOC
O grupo apresenta documentários editados ao vivo em softwares de edição e de VJ. A manipulação das imagens - três fontes de imagens, carregadas em três laptops que chegam ao mixer - é feita diante do público, transformando em performance audiovisual o processo de mutação do material bruto em narrativa cinematográfica.


>> >> Veja também as imagens do trabalho de Norma Vieira

>> >> Veja também Sinopse e Ficha Técnica de "Paradoxo Energético"

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