Corpo Virtual

Os meios de comunicação de massa já utilizados nos anos que antecedem a II Grande Guerra ficaram voltados ao mercado, no pós-guerra. Destas profundas transformações que movimentaram nossas mentes, temos como consequência o mundo virtual que nos obriga a levitarmos em seu redor. Um bombardeio de imagens em nossa sociedade de massa faz com que percamos nosso peso e gravidade. Na arte dos sessenta, a Pop Art já tinha consciência destas mudanças e, em oposição a ela ao mesmo tempo também contaminada pela virtualidade radical, a Body Art gerou novas experiências corporais que resultaram inclusive nas mutilações do próprio corpo de artistas performances. Esta bravata procurava demonstrar, em sentido contrário, uma ausência de sensibilidade para com o corpo humano, nossa única e obrigatória morada. Recentemente, o filme Matrix - 2000 procura fundir toda nossa condição menor de existência corporal. Da mesma forma que se carrega um computador, vemos o pouco de humano que sobrou ter a existência potecializada e turbinada por programas de computador.

A instalação de Norma Vieira, com o título "Corpo Virtual", faz uma penetração nas entranhas do corpo humano realizando cortes simétricos, à meneira de um médico operador ou açougueiro. Neste trabalho, semelhante a Matrix, encontramos uma busca de unidade existencial entre o corpo, com suas entranhas aberrtas ligadas por um cordão umbilical de prata, com o todo. Na cultura bambara o corte do cordão, seu secamento e rompimento no sétimo dia, passa a corresponder à uma nova existência de vida. Oposto à Matrix, não é o mundo virtual ligado ao cérebroque conecta o computador por cabo telefônico de fibra ótica, mas as vísceras do homem são os conectores, ou seja, nossa condição carnal primária. No entanto, os instrumentos da criação desta imagem carnal são resultantes de manipulações fotográficas digitais, produzindo o espelhamento de nossa simetria estrutural e corpórea, criando um corpo orgânico similar, mas inexistente.

A instalação produz o evolvimento do espectador pela escala, que lembra as pinturas minimalistas, porém, neste caso, uma figura de vísceras abertas produzida em lona plástica por meio de impressão digital desenvolvida para a propaganda, são estes os mesmos meios que deram continuidade ao mundo virtual antes utilizado pela Pop Art. Ao citar esta característica procuro demonstrarque os trabalhos artísticos hoje estão todos contaminados de alguma maneira pelo virtual. Portanto, o carnal do trabalho de Norma é semelhante ao orgânico e carnal de Matrix,são manipulações digitais onde a ação humana tem gestos mínimos.

Em Matrix a velocidade dos corpos realiza sua existência na aceleração; em "Corpo Virtual" o espectador tem pouca velocidade e é orientado por uma vertical marcada pela simetria da imagem e pelo cordão umbilical de prata que, submetido à gravidade, desce para o piso inferior do edifício e enrola-se em espiral. Esta vertigem ara o desconhecido enfoca o abismo constante para onde o trabalho aponta. Contrários como morte e vida são espelhados todo o tempo à nossa condição de dúvida existencial. Quando somos lembrados da necessidade de um mundo real, em meio ao bombardeio de imagens, nem mesmo o superlativo é condicional suficiente para a expressão.

MARCO DO VALLE

 

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